Diário de um Louco, de Nikolai Gogol

Publicado em 1835, “Diário de um louco” é o único conto de Gogol narrado em primeira pessoa. Muitas vezes associado a um aspecto biográfico do autor e as condições de sua morte, em 1852, o conto descreve o enlouquecimento gradual de um funcionário de uma repartição pública de São Petersburgo, Aksenty Ivanovich Poprishchin, sua difícil relação com os seus chefes imediatos e seu desejo impossível por Sofia, filha do diretor da repartição. Sua baixa condição social e sua aparência física lhe impediam de realizar este sonho. Após ler as cartas escritas pelas cadelas de Sofia, onde se introduz o elemento fantástico, descobre o desdém que ela sente por ele e sua preferência por um certo deputado. Poprishchin, em seguida, delira e acredita ser o rei da Espanha. No dia seguinte, ao ir trabalhar, se recusa a levantar da cadeira e a fazer qualquer serviço alegando autoridade imperial. Poprishchin é posto numa camisa de força e internado num hospital psiquiátrico. O texto realiza de forma alegórica, na descrição das forças externas que atuam sobre a personagem, uma crítica política e social da Rússia no período repressivo do czar Nicolau I.

3 DE OUTUBRO

Hoje três de outubro teve lugar um acontecimento extraordinário. Me levantei bastante tarde! Chamei Maria: – Maria… Maria!

Que coisa inacreditável! Ela trouxe minhas botas limpas e engraxadas. Lhe perguntei a hora.

Já passam das dez! Me respondeu. Então tratei de me vestir correndo. Confesso que não teria ido a repartição se tivesse previsto a cara que o chefe me fez. Já faz algum tempo que ele anda me dizendo:

– Que passa em tua cabeça homem? Há semanas estás tão, tão enlouquecido e enredas os assuntos de tal forma, que nem mesmo o diabo seria capaz de entender o que você faz! Mas será que você quando escreve um simples título não repara que está escrevendo com letra minúscula? Você esquece de indicar a data e a referência!

A referência! Ah canalha! Com certeza está com inveja de mim, porque eu trabalho no gabinete do diretor e sou eu quem entrega os recados e vai pagar as contas para o diretor. É isto mesmo. Em suma; eu não teria ido a repartição, se não fosse para conseguir um vale com o caixa!… Aquele sovina! Nem mesmo Deus consegue arrancar um vale daquele miserável! O sujeito pode estar na miséria, chorar, rogar, implorar, arrastar-se, ameaça-lo, que aquele demônio careca, não lhe dará nem só centavo; entretanto na casa dele, quem manda é a sua mulher e até a criada lhe dá bofetadas. Isto todo mundo já sabe.

Não compreendo! Não compreendo que vantagem se tem em trabalhar como eu numa repartição municipal? O salário é uma esmola! Porém, não acontece o mesmo no Congresso Nacional, lá o assunto é muito diferente! Os deputados bem melhores instalados que nós, ganham muito dinheiro e ficam todos os dias nos seus gabinetes sem fazer nada, falando… falando… falando… porém sempre tratam o povo com hipocrisia.

– Oh sim senhores, temos muita consideração pelos senhores, pois conosco, o povo é, e sempre será, muito bem atendido, pois o povo é digno de toda nossa atenção e respeito!

Porcos é o que são todos! Porém, reconheço que em nossa secção é diferente, em toda ela existe uma limpeza de conduta e uma honradez tal, que nem em sonho pode caber no Congresso Nacional. Além disso, todos os chefes se tratam por senhor. Confesso que se não fosse pela honra e o bom tom de minha secção, há muito tempo que eu teria deixado a repartição municipal.

Vesti o meu velho capote de todos os dias e peguei meu guarda-chuva, pois chovia a cântaros. Na rua não havia ninguém. Só encontrei mulheres do povo, comerciantes que caminhavam debaixo de seus guarda-chuvas e motoristas. Gente de bem não se via por nenhum lado, com exceção de uma pessoa que andava em frente da loja pela qual eu estava passando! Por Deus! É o carro de nosso diretor, mas ele não tem o que comprar nesta loja. Imaginei que devia ser sua filha, pois ele não tinha porque vir a esta hora numa loja que vende somente artigos femininos.

O criado abriu a porta e a jovem saltou do carro com um passarinho. Lancei uns olhares em torno dela, e eu percebi logo um brilho em seus olhos! Meu Deus, estou perdido! Irremediavelmente perdido!

Mas por que haverá saído ela de sua casa com este mau tempo? Depois disto que ninguém se atreva a dizer-me que as mulheres não são loucas.

Ela não me reconheceu, porque eu procurei esconder-me e passar despercebido, pois meu capote está manchado, fora de moda, velho e além de tudo, o tecido é muito grosseiro e bastante surrado.

Sua cachorrinha não pôde entrar e ficou ali na calçada. Eu a conheço, se chama Fifi! Seu nome é Fifi, não cachorrinha linda?

– “Olá Fifi…”

Quem será que falou? Olhei em torno e vi as duas senhoras que caminhavam debaixo de um guarda-chuva. Porém, elas já haviam passado, quando novamente ouvi a mesma voz ao meu lado. Estarei bêbado? Não isto é muito raro. Que bruxaria! Eu vi Fifi farejando o cachorro que ia com as duas senhoras!

– “Está equivocada Fidele… au, au… é que eu estive muito doente.”

Confesso que fiquei muito surpreso ao ouvi-las falar como uma pessoa, porém depois de refletir bem, não achei nada estranho nisto. A verdade é que no mundo existem muitos exemplos do mesmo gênero. Contam que na Inglaterra viram um peixe sair do mar e dizer duas palavras numa língua tão estranha, tão rara que nenhum sábio conseguiu decifrar. Também li nos jornais que duas vacas entrar num mercado para comprar chá, Porém, reconheço que fiquei ainda mais surpreso quando ouvi ela dizer a Fidele.

– “É verdade que te escrevi, Fidele! Porém, tenho certeza que Dengoso, aquele cretino, não te entregou a carta.”

Ainda que eu perca todo o meu salário, apostaria que nunca se soube de um cachorro que escreva! Bem… escrever até não é tão impossível, porém escrever com perfeição, isto somente um funcionário como eu pode saber fazê-lo. Claro que também alguns escriturários, comerciantes, e as vezes até pessoas do povo sabem escrever um pouco, mas o fazem de um modo mecânico, sem colocar vírgulas nem pontos e, claro, sem nenhum estilo.

A verdade é que isto me deixou muito assustado! Tenho de confessar que já faz algum tempo que às vezes ouço e vejo coisas que ninguém viu e nem ouviu jamais.

Vou seguir esta cachorrinha, assim ficarei sabendo o que é e o que pensa. Abri o guarda-chuva e comecei a seguir as duas senhoras. Elas cruzaram a Rua dos Josefinos e foram pela rua Santo Antônio, parando finalmente em uma ponte em frente a um grande casarão.

Eu conheço esta casa, é a casa de Dona Aurora! Casa? Ou melhor, um quartel, uma pensão, um verdadeiro formigueiro onde moram cozinheiros, viajantes e até alguns de nossos companheiros da repartição, vivem ali como cachorros em um canil! Ali também mora um amigo que toca muito bem trompete; mora no terceiro andar. As senhoras subiram ao quinto andar.

Então pensei: Agora já posso ir, porém não posso me esquecer do lugar, porque creio ainda me vai ser muito útil!

4 DE OUTUBRO

Hoje é quarta-feira. Esta manhã, como em todas as quartas-feiras, eu me dirigi ao gabinete do diretor. Cheguei de propósito um pouco mais cedo. Nosso diretor deve ser um homem muito inteligente; o seu gabinete é cheio de armários com livros. Tudo aquilo é instrução, no entanto, não é instrução para todos. Além do mais, são livros que estão escritos em alemão ou francês; assim que nem em sonhos estão ao alcance dos empregados. Seus olhos expressam gravidade! E seu aspecto imponente reflete toda a sua pessoa. Nunca ouvi ele dizer uma palavra inútil. Somente quando lhe entrego algum documento se digna a perguntar-me:

– Como está o tempo, Poprishchin?

– Está muito úmido excelência!

Na verdade, pessoas como nós, não se podem comparar a ele! Ele é o que se diz: Um verdadeiro homem de Estado. Entretanto, tenho notado que tem por mim especial carinho! Ah, se sua filha…

– Cale-se estúpido!

Está bem, estou calado, é melhor que me cale e não diga nada!

Enquanto esperava o diretor matei o tempo lendo o jornal. Que gente mais estúpida são os franceses; o que eles pretendem? Com muita boa vontade eu os agarraria a todos e lhes daria uma boa surra! Depois me dei conta que era já meio dia e meia e que o diretor ainda não havia chegado. Porém, cerca de uma e meia depois houve um acontecimento que ninguém seria capaz de relatar. A porta se abriu, eu me levantei de um salto com os papéis nas mãos pensando que seria o diretor, porém que surpresa! Estava com um vestido branco e vaporoso como um cisne. E ao levantar os olhos acreditei que me atingiam os raios de sol… me cumprimentou e disse com uma voz semelhante a de um canário.

– Papai ainda não chegou?

Ah, que voz! Uma verdadeira melodia. Excelência, a senhora quer castigar-me? Pois, se é esse o seu desejo, que o faça com suas próprias mãos. É isto que eu quis dizer-lhe, porém a minha língua travou e só pude dizer:

– Não… não chegou.

Ela me dirigiu um olhar, olhou também para os livros e deixou cair o seu lenço. Eu corri para apanha-lo porém escorreguei neste maldito assoalho e quase quebro meu nariz. Mas, consegui me equilibrar e apanhei o lenço sem cair. Deus meu, que lenço! Era de seda. Âmbar! Aquele lenço tinha o perfume de âmbar.

Ela me agradeceu e seus lábios esboçaram um sorriso. Em seguida se foi. Creio que fiquei ali parado por uma hora até que veio o porteiro e me disse:

– Vá para casa Poprishchin, o senhor já saiu e não volta mais.

Não posso suportar os porteiros; sempre estão dormindo na recepção e nem por casualidade nos cumprimentam. E não é só isto, senão que um dia desses passou pela cabeça de uma dessas bestas oferecer-me cigarros sem levantar-se do lugar.

Escute aqui seu estúpido, eu sou um funcionário de família nobre! Contudo, eu mesmo coloquei o meu chapéu e vesti o meu capote, pois seria inútil esperar ajuda dessa gente. Voltei para casa e passei deitado na cama, todo o resto do dia. Depois, fiz uns versos muito bonitos.

Minha alma!
Em tua ausência, uma hora, um ano completo parece, passado sem ti.
Odiosa é a vida, que se está só, senhora!
Por isto penso: Se não viesses, o melhor teria sido morrer!

Parecem versos de Pushkin!

Ao cair da noite, agasalhando-me bem com o meu capote fui a casa de Vossa Excelência esperando vê-la sair. Mas não, ela não apareceu nem em sombra.

6 DE NOVEMBRO

Chefe de pessoal! Chefe de pessoal! Mas, que é um chefe de pessoal?

Hoje quando cheguei na repartição, o chefe do pessoal me deixou fora de mim, pois me chamou e disse:

– Mas, o que é que andas fazendo?

Como? Eu não faço nada!

– Bem… reflita um pouco. Já passastes dos quarenta; me parece que é hora de te tornares um pouco mais inteligente! Acaso acreditas que não estou sabendo de todas as suas criancices? Sei muito bem que andas atrás da filha do diretor! Homem! Olhe-se no espelho! Pense no que és! Não és mais que um zero que é menos que nada! Não tens nenhum centavo! Olhe… olhe a sua cara no espelho e vais ver que somente tens é pretensão!

Ele é que deveria olhar-se no espelho! Tem a cabeça igual a um garrafão, com quatro pêlos que são com uma espécie de pomada de rosas! E acredita que a ele tudo lhe é permitido? Eu sei por que ele está furioso: é que tem inveja de mim, com certeza já percebeu que sou alvo de preferências especiais.

Porém ele não tem nenhum valor para mim, pode dizer o que quiser que eu não estou nem aí. O que é um chefe de pessoal? Por usar uma corrente de ouro em seu relógio e calçar sapatos caríssimos acredita ser alguém? Que vá para o diabo! Eu sou nobre, eu também poderei obter o mesmo cargo que ele. Só tenho quarenta e quatro anos, que na realidade é a idade em que se começa a trabalhar. Eu também poderei ser diretor, capitalista e com a ajuda de Deus, talvez algo mais! Eu gozarei de uma reputação ainda melhor do que a tua. Acreditas mesmo que no mundo não existe homem mais interessante que tu? Quando eu tiver uma roupa bem cara e uma gravata como a tua, ninguém chegará nem aos meus calcanhares! O diabo é que eu não tenho dinheiro!

8 DE DEZEMBRO, OU MELHOR, 8 DE NOVEMBRO

Estive no teatro. Assisti uma obra de um autor bem divertido. Ri muito! Apresentaram também um vaudeville em versos satirizando os advogados e os juízes. Os políticos também tiveram a sua pequena parte. O autor deixou bem claro que eles enganam a todo mundo.

Atriz “Ai meu coração! Gustavo, ponha a mão aqui no meu coração e sinta o seu palpitar”.

Ator -“Senhora… Não se sente bem?”

Atriz -“E que te importa se estou bem ou mal. Morta ou viva?”

Ator -Por favor, senhora! Não creia somente nas aparência, elas podem ser enganadoras.

Atriz -“Bem… então sois um grande canalha!”

Eu gosto muito de ir ao teatro. Quando tenho algum dinheiro no bolso não posso me conter e vou. Porém, entre nossos colegas de repartição, há muitos que não vão mesmo que se dê as entradas de presente. Também cantou muito bem uma atriz. Até me lembrei da outra, aquela…

– Cale se estúpido!

9 DE NOVEMBRO

Ás oito fui à repartição, o chefe de pessoal fez de conta que não percebeu que eu havia chegado. Eu também fiz de conta que nada acontecera entre nós dois. Bem… então que fiz eu? Ah, sim! Fiz uma revisão nos documentos e organizei os arquivos. Saí às quatro e passei na casa do diretor, mas não vi ninguém. Depois de comer, estive quase todo o tempo deitado.

11 DE NOVEMBRO

Muitas vezes pensei em entabular uma conversação com sua excelência, porém o caso é que minha língua se nega a obedecer-me. Somente consegue dizer: O tempo está quente, ou o tempo está frio. É o máximo que consigo dizer! Ah, como me interessaria observar de perto a vida daqueles senhores, conhecer todas as artimanhas da sociedade, saber o que pensam e o que falam entre eles. Sorrisos, cumprimentos, reverências, batidinhas nas costas! Eu gostaria muito de aprender este jogo também!

O diretor é uma pessoa muito inteligente! Ah, que cérebro o seu! Sempre está calado, porém sua cabeça deve estar sempre reflexionando. Eu gostaria muito de saber em que se digna a pensar e o que encerra aquela cabeça.

Gostaria também de conhecer a sua casa, dar uma espiada na sala, pela porta que às vezes fica aberta. Que luxo e que riqueza existem ali! Que porcelanas! Quanto me alegraria dar uma olhada naquela parte em que sempre fica a filha de Vossa Excelência! Ah, isto sim eu gostaria!… estar ali no tocador onde há todas aquelas caixinhas e vidrinhos, flores tão delicadas que dá até medo tocá-las. Me encantaria ver o seu dormitório… suas roupas transparentes, seu vestido mais leve que o ar, por ali jogado, deve ser um sonho, um verdadeiro paraíso. Se eu pudesse ver como põe a meia branca com a neve sobre aquela perna…ai senhor!

– Cale-se estúpido!

Sim é melhor que eu me cale e não diga nada…

Ah, e a conversa que ouvi na rua entre os dois cachorros? Como pude esquecer-me de um acontecimento tão interessante? Agora averiguarei tudo. Vou interrogar Fifi.

– Ouça-me Fifi. Agora estamos sós, se quiseres eu posso fechar a porta para que ninguém nos veja. Anda, conta-me tudo o que sabes sobre a tua dona. Diga-me como ela é e eu juro, que não contarei a ninguém.

Porém a turrona encolheu o rabo entre as patas e escapou silenciosamente pela porta, como se não tivesse ouvido nada.

Já há muito tempo eu desconfio que os cachorros são muito mais inteligentes que as pessoas e que inclusive sabem falar, só que são bastante teimosos. Os cachorros têm uma capacidade de julgar excepcional, nada lhes escapa da conduta dos homens. Amanhã sem falta irei a casa de Dona Aurora, interrogarei Fidele e se conseguir, arrancarei todas as cartas que lhe escreveu Fifi.

12 DE NOVEMBRO

Hoje, 12 de Novembro, às duas horas, saí com a firme intenção de encontrar Fidele e interrogá-la. Chegando ao quinto andar na casa de Dona Aurora, ao tocar a campainha veio abrir uma jovem bastante tonta com o rosto cheio de espinhas, era a mesma que estava com a anciã. Ruborizou-se um pouco ao me ver e eu compreendi imediatamente que ansiava ter um namorado.

– Que deseja? Me perguntou.

– Preciso falar com a sua cachorrinha.

Então ficou com a boca aberta assustada. A jovem era uma idiota, eu notei isto imediatamente. Entretanto, a cachorrinha se precipitou latindo, eu quis agarrá-la, porém a cretina, por pouco não me morde o nariz. Mas eu já havia visto a sua caminha, e era justamente o que buscava. Me aproximei, agarrei o maço de cartas e sai correndo. Creio que a jovem me tomou por algum louco, pois se assustou terrivelmente. Ah, agora finalmente vou ficar a par de tudo, as cartas me revelarão tudo. Com certeza encontrarei ali algo referente a ela.

Maldita cachorra! Ela me mordeu, porém eu consegui as cartas e isto é o mais importante de tudo. Amanhã vou ler estas cartas.

– Cale-se imbecil!

Está bem estou calado, é melhor que me cale e não diga nada!

13 DE NOVEMBRO

Muito bem, vejamos… a carta parece bastante clara; sem dúvida a letra põe em evidência o cachorro. É uma carta redigida muito corretamente quanto aos acentos, pontuação e ortografia. Nem nosso chefe de seção seria capaz de escrever tão bem, ainda que afirme haver estudado em uma universidade. Leiamos pois:

“Me parece que um dos maiores prazeres no mundo está em trocar pensamentos, impressões e sentimentos com outras pessoas.”

Bem! Este é um pensamento extraído de uma obra traduzida do alemão e cujo título… não lembro agora!

“Digo-lhe por experiência, ainda que eu nunca tenha ultrapassado a porta de nossa casa. Contudo a minha vida é muito feliz! Minha Dona Sofia, assim a chama, papai, gosta muito de mim…”

Não está mal! Não está mal! Porém, calemo-nos!

“Papai também me faz carinhos frequentemente. Além disso sempre me dão chá e café com creme. Ah minha querida não posso nem olhar para aqueles ossos bem pelados que Dengoso come na cozinha. Os ossos somente são bons quando provenientes de alguma caça, com a condição de que não tenham ainda chupado o tutano. Porém não existe coisa pior que esse costume que as pessoas têm de dar aos cachorros bolinhas feitas de massa de pão. Algum senhor está sentado a mesa, começa a amassar o miolo do pão com sua mãos que Deus sabe que porcarias terão tocado antes, e depois te chama para meter-te entre os dentes aquela bolinha!”

Que idiotice! Que idiotice! Como se não houvesse nada melhor sobre o que escrever! Vamos ver se na outra página há algo mais interessante.

“Tenho muito prazer em informar tudo o quanto acontece aqui em casa. Acredito que já te falei do senhor mais importante da casa, ao qual Sofia chama de papai, é um homem muito estranho…”

Ah, por fim! Eu já sabia que os cachorros são muito sagazes em todos os assuntos. Vejamos o que diz sobre o papai…

“Um homem muito estranho. Raramente fala, porém na semana passada falava consigo mesmo perguntando-se: “Vou receber ou não?”Uma vez até se dirigiu a mim e me perguntou: “Tu o que pensas Fifi? Receberei ou não?” Eu não pude compreender o que ele queria dizer. Só farejei os seus sapatos e fui-me. Uma semana depois, papai estava louco de alegria. Durante toda a manhã recebeu visitas de uns senhores de uniforme que lhe felicitaram por alguma coisa. Durante a refeição esteve tão alegre como eu nunca lhe vi, não parava de contar piadas. Depois de comer, me levantou até a altura de seu pescoço e me disse: “Veja Fifi o que eu tenho aqui.” Eu vi somente uma fita azul, a farejei, mas não senti o menor cheiro, finalmente a lambi, estava meio salgada.”

Este cachorro é bastante atrevido! Falta lhe dar uma boa surra! Então quer dizer que o nosso homem é ambicioso! Haveremos de ter isto em conta…

“Adeus querida minha! Vou embora correndo! Amanhã lhe contarei o resto. Olá, outra vez estou contigo. Hoje, Sofia estava sentada junto a uma mesinha bordando eu olhava pela janela, pois gosto muito de observar quem passa, quando entrou o mordomo e anunciou: O senhor Enrique! Que entre – respondeu Sofia e se atirou sobre mim dizendo-me: “Ai Fifi, se soubesses quem é?! É um deputado com muito dinheiro, com olhos azuis e brilhantes como o fogo”. Sofia foi correndo para seu quarto. Um minuto depois entrava o jovem político. Se aproximou do espelho, arrumou o cabelo e examinou toda a sala, eu soltei um grunhido e continuei no meu lugar. Sofia não demorou em voltar e alegremente o cumprimentou, e eu como se não percebesse nada continuei olhando pela janela, fazendo o possível para ouvir o que diziam. Ai, minha querida, quanta besteira! Não sei o que Sofia teria encontrado em Enrique e porque está tão apaixonada! Me parece que se gosta tanto deste deputado, há de gostar também do funcionário que sempre está no gabinete de papai! Ai minha querida, se visses que feio ele é? Mais parece uma tartaruga vestida com um paletó! Tem um nome muito estranho. Sempre está sentado, fazendo pontas nos lápis do pai de Sofia. Seu cabelo parece com capim. Papai sempre o manda entregar recados e a pagar as suas contas no lugar do criado…”

Parece que é a mim que essa maldita cachorra se refere. Mas, por que diz que tenho o cabelo parecido com capim?

“Sofia não consegue conter o riso cada vez que o vê.”

Mentes cachorra maldita! Como se eu não soubesse que isto tudo é pura inveja! Acaso imaginas que ignoro que isto são coisas de meu chefe de seção? Eu sei que ele me tem um ódio feroz e quer prejudicar-me até a minha morte. Vou ler outra carta. Quem sabe encontrarei nela a chave de tudo!

“O deputado agora vem visitá-la todos os dias e Sofia está perdidamente apaixonada por ele. Papai está muito alegre e até já ouvi dizer que logo haverá casamento, porque papai, quer casar Sofia, com um empresário, com um banqueiro ou com um político!”

Maldição! Não posso continuar lendo, tudo o que existe de melhor neste mundo, há de ser sempre para um empresário, para um banqueiro, ou para um político! Eu queria ser deputado, não só para obter a mão de Sofia e as demais coisas, mas para ter todo mundo a minha volta e eu poder dizer-lhes: Para vocês, um cuspe!

3 DE DEZEMBRO

Não é possível! É mentira! O casamento não se realizará! Ele é um deputado com dinheiro, sim e daí? Por ser um deputado com dinheiro não lhe vai nascer outro olho na testa, nem vai ter um nariz de ouro, senão que o tem igual que o meu e que todos os demais mortais, não come e nem tosse com ele, senão que cheira e espirra. Já em diversas ocasiões eu quis averiguar de onde se origina semelhantes diferenças. Por que hei de ser eu um escrevente? Por que rigorosamente um escrevente? Talvez eu seja um rei disfarçado em escrevente. Talvez eu mesmo ignore quem sou. Quantos exemplos existem na história? Um homem comum… não, não falo de um nobre… um vulgar camponês, de repente, descobre que é um homem de linhagem, por exemplo um barão. E se um simples camponês, chega a estas alturas, o que será então de um nobre como eu?! Se por exemplo, de repente, eu entrasse na secção de vestido de rei, em que tom passaria a cantar o coro? Que diria o nosso pai, nosso diretor? Oh! Ele é muito vaidoso! Creio que é um maçom, não, tenho certeza que é um maçom, pois quando estende a mão a alguém, estende primeiro os dedos. Porém, por que não posso ser nomeado agora mesmo diretor, ou governador, ou receber algum cargo importante? Eu gostaria de saber por que sou escrevente? Por que precisamente um escrevente?

5 DE DEZEMBRO

Que coisas tão esquisitas estão acontecendo na Espanha? É impossível compreender muito bem! O trono está vago e os altos dignatários, estão numa situação muito difícil com relação a eleição do herdeiro.

Porém, isto me parece sumamente estranho. Como pode o trono estar vago? Dizem também que uma certa Dona vai subir ao trono. Porém isto é impossível, uma Dona não pode subir ao trono, pois o trono deve ser ocupado por um rei. No entanto, dizem que não há rei. Um Estado não pode ficar sem rei. Ele deve existir, porém com certeza está incógnito. Ou melhor, se encontra ali mesmo, porém por questões da família ou por temor as potências estrangeiras, como os Estados Unidos, por exemplo, se vê obrigado a esconder-se. Também poderá ser por outros motivos. Talvez… Quem sabe?

Já estava disposto a ir a repartição como todos os dias, porém não posso deixar de pensar no assuntos da Espanha. Como pode ser que uma Dona seja rainha? Não podem permitir uma coisa dessas. E para começar, a Inglaterra, a grande aliada dos Estados Unidos, não permitiria essa solução!

Além do mais, não se pode esquecer a situação política de toda a Europa. Confesso que estes acontecimentos me perturbam e me cansam que não tenho vontade de fazer nada. Maria observou que ando muito distraído. Isto é verdade, pois eu estava com uma xícara de café nas mãos e a deixei cair no chão ficando em cacos; tão distraído eu estava! Depois de comer eu saí a passear ,um passeio não me trouxe nenhum alívio. Voltei para casa e fiquei a maior parte do tempo na cama refletindo sobre os problemas da Espanha.

ANO 3000. 43 DE ABRIL.

Hoje é um dia muito solene! A Espanha tem um rei. Por fim ele foi encontrado. E este rei sou eu!

Somente hoje é que me dei conta disto. De repente me senti como que inundado de luzes! Como pude pensar e imaginar que eu era um escrevente? Como foi possível me ocorrer uma ideia tão louca? Ainda bem que ninguém teve a ideia de internar-me num hospício! Ah, agora eu compreendo tudo, agora eu vejo tudo com clareza. Antes não compreendia. Antes, eu diria que tudo o que via estava perdido na névoa.

Tudo isto acontece, creio eu, porque todos imaginam que o cérebro de uma pessoa está em sua cabeça; porém é o vento, quem o traz do mar Cáspio.

Eu disse a Maria quem eu era. Quando ficou sabendo que se encontrava diante do rei da Espanha, levantou os braços para o céu e por pouco não morreu de susto. A verdade é que ela jamais havia visto o rei da Espanha. Ela estava convencida que todos os reis da Espanha seriam parecidos com Felipe II. Entretanto, eu lhe expliquei que entre Felipe II e eu, não havia a menor semelhança, e eu sim usava cavanhaque.

Não fui a repartição! Que vão para o diabo! Não, basta! Terminou! Não mais copiarei vossos odiosos documentos!

86 DE MARTUBRO – ENTRE O DIA E A NOITE

Hoje o diretor passou por nossa seção, todos abotoaram os seus casacos e se levantaram; Eu não fiz nada. Diretor? Jamais iria me levantar diante dele! Que é um diretor? Uma rolha e nada mais. Uma dessas rolhas com que se tapam as garrafas. Trouxeram um documento para que eu assinasse. Eles pensavam que eu ia escrever embaixo da página: Eudóxio. Mas eu escrevi no espaço principal, ali onde assina o Diretor, Fernando VIII, Rei da Espanha! Se fez um silêncio religioso na sala! Eu somente acenei com a mão e disse: “Não senhores, não são necessários juramentos de fidelidade”. Depois sai. Fui diretamente à casa do diretor, que não estava. O criado não queria deixar-me passar, porém quando lhe disse quem eu era ficou com a boca aberta e os braços caídos. Me dirigi diretamente ao quarto de Sofia. A encontrei sentada diante do espelho. Quando entrei deu um pulo para trás. Eu, no entanto, não lhe disse que era o rei da Espanha; somente declarei que lhe esperava uma felicidade tão grande, que nem sequer poderia imaginar e que apesar de todas as intrigas de nossos inimigos, estaríamos juntos.

Não quis dizer-lhe mais e saí. Somente hoje foi que compreendi o que são as mulheres! Até agora ninguém sabia de quem estava enamorada a mulher. Eu fui o primeiro a descobrir. A mulher está enamorada do demônio. E isto não é nenhuma brincadeira. Os cientistas escrevem bobagens acerca dela; porém ela somente ama ao demônio. Vejam aquela que faz sinaizinhos com o dedo ao senhor gordo. Acreditam que ela está olhando pra ele? Nada disso, olha para o demônio que está atrás, nas suas costas. Ela se casará com ele. E todos estes funcionários que procuram introduzir-se na corte dizendo que são patriotas? Na verdade todos estes “patriotas” não procuram mais do que dinheiro. Por dinheiro seriam capazes de vender as suas mães, seus pais e o próprio Deus. E essas ambições excessivas, se explicam porque debaixo da língua todos têm uma pequena ampola, e dentro dela, uma lombriga do tamanho de um alfinete, e quem o faz? É um certo barbeiro que caminha pelo mundo com uma parteira propagando a religião de Maomé.

SEM DATA

O dia de hoje é sem data. Nosso presidente passou de trenó. Todas as pessoas tiraram o chapéu; eu também fiz o mesmo, e me comportei como se não fosse o rei da Espanha, achei pouco recomendável dar-me a conhecer assim, diante de todos. Antes de tudo devo apresenta-me a côrte. A única coisa que está me impedindo é até agora não ter ainda nenhum traje de rei. Eu gostaria muito de encarregar a um alfaiate de fazê-lo, porém esta gente é muito burra e não cuidam de seu trabalho, pois estão a maior parte do tempo na rua a fazer negócios escusos.

Decidi eu mesmo fazer o meu traje de rei. Fechei a porta de meu quarto para que ninguém me visse e comecei o trabalho. Não me lembro do dia nem tampouco do mês. O diabo, saberá que mês é.

Meu traje de rei está terminado. Maria deu um berro quando eu o vesti! Não me atrevo ainda em apresentar-me na corte. Até agora não chegaram os deputados espanhóis e sem os deputados, seria incorreto. Rebaixaria minha dignidade.

E aqui estou na Espanha. Isto aconteceu com tanta rapidez, que apenas deu tempo de eu voltar do meu assombro. Esta manhã os deputados espanhóis se apresentaram em casa e eu vim com eles.

Me surpreendeu a extraordinária rapidez da viagem, em menos de meia hora chegamos a Espanha. Que país tão estranho é a Espanha! Ao entrar na primeira moradia, vi muitas pessoas com a cabeça raspada e imaginei que deveriam ser frades dominicanos ou capuchinhos, pois eles é que tem o costume de raspar a cabeça. O comportamento do chanceler de Estado comigo me pareceu muitíssimo estranho: Me empurrou a um quarto dizendo-me: Fique aqui. E se persistes em passar por Felipe…

Eu lhe disse: – Felipe não, Fernando VIII Rei de Espanha.

Então ele me bateu nas costas com um porrete. Foram tão dolorosos os golpes que me faltou pouco para gritar; porém me contive ao pensar que aquilo era só um costume cavalheiresco das tradições espanholas. Ao ficar só decidi ocupar-me dos assuntos de Estado. Descobri por exemplo que Espanha e China são um mesmo país, e que só por ignorância os consideram como países diferentes. Aconselho a todo mundo escrever em um papel Espanha e verá como sai China…

Amanhã às sete horas, acontecerá um fenômeno terrível. A Terra vai sentar-se sobre a Lua. Todos sabemos que a Lua se fabrica em Hamburgo, e quem a fabrica é um carpinteiro cocho e aliás, muito mal, pois fez de luz um globo tão delicado que é impossível as pessoas viverem ali. Agora só vivem os narizes. Esta é a razão pela qual não podemos ver nossos narizes, já que todos estão na Lua. Quando percebi que a Terra, matéria pesada e potente iria sentar-se sobre a Lua, e a reduzir nossos narizes em papinhas, se apoderou de mim uma inquietude tal que corri a sala do Conselho de Estado a ordenar que a polícia não permitisse a Terra sentar-se sobre a Lua.

Os nobres da Espanha de cabeça raspada, que encontrei na sala do Conselho de Estado, são pessoas muito inteligentes, pois quando eu lhes disse: “Cavalheiros, salvemos a Lua, porque a Terra vai sentar-se em cima dela”, todos correram para cumprir o meu real desejo. Alguns treparam nas paredes a fim de alcançar a luz, porém naquele momento entrou o grande chanceler. Ao vê-lo todos fugiram. Eu, como rei, fiquei. Mas ele me bateu outra vez com o porrete, vestiu-me uma camisa de força e me jogou no quarto. Que poder têm os costumes populares e tradicionais na Espanha.

JANEIRO DO MESMO ANO QUE TEVE LUGAR DEPOIS DE FEVEREIRO.

Até agora não consigo compreender que país tão esquisito é a Espanha. Os costumes populares e o cerimonial da côrte são completamente extraordinários. Não compreendo decididamente não compreendo mais nada. Hoje tentaram me tosquear.

Ah, porém eu não permiti. Gritei como um condenado, dizendo que não queria ser monge. Mas, não posso recordar o que me passou quando começaram a jogar água fria sobre a minha cabeça, jamais experimentei um inferno semelhante, tiveram muita dificuldade em controlar-me.

Não compreendo o significado desse estranho costume, é um costume estúpido, absurdo! A insensatez dos reis que até agora não souberam desfazer-se destes costumes é inconcebível! A julgar por tudo, me parece que caí nas mãos da inquisição e aquele a quem tomei pelo chanceler não é mais que o grande inquisidor. Mas não consigo compreender como é possível a um rei submeter-se a inquisição. Como é possível? Bem… é verdade que disto somente cabe a culpa à França e aquele torpe chefe de seção! Que besta! Jurou opor-se a mim até a morte! Por isto me persegue todo o tempo, porém já sei amigão que trabalhas debaixo da pressão da França e os franceses são grandes políticos, pois sempre estão procurando infiltrar-se em todos os lugares. E o mundo inteiro sabe que quando a França cheira rapé o mundo inteiro espirra.

– Atchim!!!

DIA 25

Hoje o grande inquisidor esteve aqui no meu quarto. Eu ao ouvir os seus passos me escondi debaixo da cama. Ele ao não me encontrar, começou a gritar

– Poprishchin!

Eu calado.

– Poprishchin!

Eu, nenhuma palavra.

Depois disse:

– Poprishchin, conselheiro titular, nobre!

Eu permaneci sempre calado.

– Fernando Oitavo, Rei de Espanha!

Não amigo, já não me enganas! Me vai outra vez jogar água fria sobre minha cabeça! Porém, ele me encontrou debaixo da cama e me fez sair a custa de porretadas.

Que brutalidade! Entretanto, fui recompensado de tudo com o descobrimento que fiz hoje. Descobri que todos os galos têm a sua Espanha. E que cada um a leva debaixo das penas do rabo.

O grande inquisidor saiu daqui furioso ameaçando-me com terríveis castigos, mas eu não dei importância ao seu furor impotente, já que trabalha somente como uma máquina, como um instrumento dos franceses.

DIA 34 DE FEVEREIRO DE 343.

Não, já não tenho forças para aguentar mais! Que estão fazendo comigo? Que mal fiz a essa gente? Não fazem caso de mim, não me olham, não me escutam. Que lhes fiz eu Senhor? Por que me atormentam? Que esperam de mim? Nada lhes posso dar porque nada tenho. Estou esgotado!

Não tenho forças, não posso aguentar mais todos os martírios que me fazem. Tenho a cabeça ardendo e tudo dá voltas em torno de mim. Salvem-me, levem-me daqui! Que me dêem uma troika com cavalos mais velozes que o vento! Senta-te cocheiro para levar-me para longe deste mundo! Mais longe, mais longe ainda para que eu não veja nada! Como onde ia o céu diante de mim, ao longe cintila uma estrela, o bosque de árvores sombrias desfila diante dos meus olhos e por cima dele desponta a lua nova. Abaixo de meus pés se estende uma névoa azul, ouço uma corda que soa na névoa; de um lado está o mar e do outro a Itália; ali ao longe se vêem os casebres…

Não é a minha casa que se vislumbra ao longe? É a minha mãe quem está na janela?

Mãezinha, salva a teu pobre filho! Derrama suas quantas lágrimas sobre a sua cabeça doente! Veja como o martirizam!

Ampara em teu peito o teu pobre órfão! No mundo não tem lugar para ele. O perseguem! Mãezinha tem piedade de teu pobre menininho doente! Ah! Vocês sabiam que o sultão de Marrocos tem uma verruga, bem na ponta do nariz?

FIM

Realização: Danilo Avelleda Produções
Produção executiva: Simone e Suellen Avelleda
Direção: Octavio Camargo
Iluminação: Beto Bruel
Cenografia: Fernando Marés
Direção de movimento: Katia Drumond
Música: Glerm Soares
Arte do cartaz: Ivana Lima
Fotografia e edição: Gilson Camargo | Olhar Comum

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